Quando nasci sabia estar iniciando uma nova e árdua jornada mas, a longa
estrada que se descortinava à minha frente, não me assustava. Sua mão forte,
seu peito aconchegante estavam al¡ a me amparar. Alguns anos mais tarde,
as coisas pareciam diferentes. Eu era tão pequena e o mundo tão grande, as
coisas se tornavam mais difíceis e nem sempre você estava al¡ para me ajudar
e eu sentia medo, medo que se esquecesse de mim. A¡, você chegava, falava
carinhosamente comigo, e eu me acalmava pois sentia que era importante na sua vida.
O tempo foi passando, a adolescência chegou. As conversas diminuíram,
você andava sempre preocupado e achei que estava perdendo sua afeição.
Muitas vezes você tentou me aconselhar mas não nos entendíamos e as nossas
conversas quase sempre terminavam em discussão. Outras vezes, a criança que
ainda havia em mim se impunha impedindo que o adulto surgisse só para
receber sua atenção. Foi um período muito difícil.
Cresci, me tornei adulto com novos objetivos e senti que nossas vidas se
separariam para sempre, parecia inevitável, éramos tão diferentes, tão
estranhos um ao outro. E, assim foi. Encontramo-nos poucas vezes depois
disso, e as tentativas de reconciliação eram frágeis, embaraçosas e não
davam resultado. Éramos tão intransigentes.
Gostaria de lhe encontrar outra vez pois tenho certeza que as coisas seriam
diferentes. Agora, tenho resposta a muitas das perguntas que fiz e entendo
que não foi fácil para você também. Acredito que, ao seu modo, você me
amou e, apesar de tudo, no meu íntimo, eu sempre soube disso.
Hoje, gostaria de, pessoalmente, lhe falar, mas não posso, você não
está mais entre nós então, lhe dirijo meus pensamentos enviando meu amor,
meu afeto e muita paz esteja você onde estiver.
Texto de Selma R. M. Picolo