COMO E BOM DANÇAR!
Namoramos há mais de cinco anos e, muitos eram os planos para o futuro. Eu não me interessava pela dança tanto quanto ela, que vivia me dizendo: “amor... vamos fazer um curso de dança juntos? Sei que você não gosta tanto quanto eu mas... Vamos vai?”
Eu sempre me esquivava do assunto com a desculpa de que assim que sobrasse um tempinho nós iríamos fazer o tal curso. Na realidade, apesar de nunca ter lhe dito, dançar até que eu sempre gostei, mas, não gostaria de ver é a minha amada nos braços de um outro qualquer e, se eu lhe dissesse isso, poderia ser taxado de machista inseguro e que não confiava em nosso amor.
E assim, o tempo foi passando até que um dia fomos convidados para um baile desses, onde eu achava um absurdo todo mundo se esfregando, trocando de parceiros o tempo todo e, chamavam aquilo de dança de salão.
Minha namorada estava radiante de tanta felicidade por eu ter concordado em acompanhá-la a um baile como aquele. Seus olhos acompanhavam cada passo dos dançarinos pela pista e, por alguns instantes, nem se lembrou que eu estava ao seu lado.
Eu, sentado, acompanhava com o olhar todos dançando e, cá pra nós, que “bailarinas”. Porém, não arriscava a me levantar para dançar com minha namorada por somente saber, de ouvir falar, que era preciso saber pelo menos dois para lá e dois para cá. Minha namorada sabia um pouco mais e acompanhava as músicas se movimentando de pé ao meu lado.
Sem que eu percebesse, aproximou-se de nossa mesa um desses dançarinos e, convidou-a para dançar. Ela olhou para mim com um olhar suplicante de aprovação ao qual não pude manifestar desejo contrário. Foi quando começou o meu martírio.
Não preciso nem dizer qual foi a minha vontade ao ver minha amada em outros braços. Durante apenas uma música, as cenas de tragédia vinham a minha mente e eu pensava, se devia ir lá e bater nos dois ou somente nela que foi a culpada por estarmos ali? Fugir e nunca mais vê-la? Ah... meu Deus quanto ódio senti! E decidi naquele instante: Vou entrar numa academia de dança amanhã mesmo e mostrar a ela quem é que manda nesse namoro!
Quando ela retornou mostrei-me indiferente, fiz de conta nem ter ligado por ela dançar com “um outro qualquer” e disse-lhe que gostaria de ir embora por ter que acordar cedo no outro dia.
Na manhã seguinte, sem que ela soubesse, matriculei-me numa academia e iniciei meu aprendizado. A princípio, parecia-me estranho ter em meus braços outra mulher sem ser a minha amada. Não entendia direito como aquelas pessoas se abraçavam tanto e não “sentiam” nada e, ao mesmo tempo, se gostavam, mas de um jeito diferente de gostar.
Aos poucos fui me acostumando. Uma coisa eu percebia, todos se esforçavam ao máximo para aprender os passos com perfeição. Às vezes, me perguntava se seria vaidade querer ser o melhor, ou isso era, apenas, o desejo natural de superação que cada um traz dentro de si.
O tempo foi passando e aprendi um pouco mais do que dois para lá e dois para cá, sem que minha amada soubesse.
Eis que chegou o dia em que fomos convidados para um novo baile e, dessa vez, eu estava mais radiante do que ela. Sem entender muito bem o que estava acontecendo comigo, minha amada me perguntou:
- Amor com que roupa você acha que devo ir?
- Vá com a roupa mais extravagante que puder... Hoje vamos abafar!
Ela pensando tratar-se apenas uma brincadeira de minha parte mudou de assunto. Eu não estava muito preocupado com o que ela usaria, pois eu tinha certeza como iria.
Durante o aprendizado na academia, notei que todos que já se sentiam aptos a “bailar”, usavam uma espécie de uniforme de identificação, ou seja, calça, camiseta preta bem justinha ressaltando o corpo atlético e sapatos de duas cores. Portanto, esta seria a minha roupa!
E, chegou o grande dia.
Ao passar pela casa de minha namorada para pegá-la, ambos nos surpreendemos. Ao me ver com aquela roupa, perguntou-me:
- Você andou freqüentando aulas de dança por ai, né?
- Sim amor, para dançarmos a noite toda, juntinhos!
- Pois eu vou lhe contar uma coisa. Eu também freqüentei algumas aulas e gostaria imensamente de colocar o vestido que preparei para esta noite?
- Claro... claro meu amor!
Estávamos prontos: eu de calça, camiseta preta atlética e sapatos de duas cores e ela com um vestido justo, decotado e aberto na lateral para passos mais ousados.
Logo que chegamos, notamos o olhar das pessoas e os comentários que pareciam dizer: Esses aí devem dançar um bocado!
A banda começou a tocar e lá fomos nós.
Fazíamos passos mirabolantes e, parecia que a pista era somente nossa.
Sempre ouvimos dizer que o dançarino tem que ter domínio de seus movimentos e do espaço que utiliza para dançar. E... nós estávamos perfeitos. Era incrível como os outros dançarinos deixavam a pista somente para nós. Foi aí que descobri COMO É BOM DANÇAR!
Texto de Renato L. Picolo